Meu café jamais vai matar tua fome

Entre a difusão do café no Brasil e a implantação de uma filial do Starbucks no país, há mais sementes do que essa cronista consegue contar. Com a chegada das primeiras mudas, o café transformou-se em produto base da economia tupiniquim. Mudou o ciclo econômico, afetou a política (o acordo selado pelas oligarquias de São Paulo e Minas Gerais foi denominado “política do café com leite”) e ganhou novos sabores, sendo incorporado a drinks y otras cositas más.
Apesar dessa nova roupagem, que adquiriu status cool, o café tradicional resiste. Sem essas modernidades, que fazem do café mera água suja. É pra descer queimando a língua. Nada de simpatia, superstição, café coado na calcinha. É preto, forte, quente, amargo. O estereótipo desse consumidor é um homem feito, de bigode bem penteado, funcionário público, que faz uma pausa entre as burocracias para abastecer o organismo desse combustível. Todavia, analisando bem, o único local onde estereótipos são verdade é no inconsciente coletivo. Na realidade, a minha maior musa cafeeira é uma jovem estudante de psicologia, com um olhar belíssimo.
Marina estudou comigo durante o Ensino Médio e, regularmente, queixava-se de problemas para dormir. Seus horários eram invertidos, me fazendo questionar se ela estava com problemas de saúde. A roqueira Pitty foi mais sensata que eu, quando cantou “nada é orgânico, é tudo programado”. Minhas dúvidas acerca dos hábitos noturnos de Marina só duraram até eu descobrir que ela chegava a beber oito xícaras de café em um dia. Nem se coasse na calcinha, teria como amarrar um sono bom. Mesmo cansada, não desistia de cumprir suas obrigações. Andar café eu vou, café não costuma falhar.
Quem prepara essa garrafa térmica de muitos goles é Mozart, irmão de Marina. Segundo a adicta, o café de Mozart é a melhor parte do seu dia. Pessoalmente, considero essa definição um desaforo, visto que eu também faço parte do dia de Marina, mas isso é assunto para outra crônica. Nessa, é imprescindível saber que a grafia do nome Mozart é idêntica à do compositor austríaco, mas a fonética é muito diferente. Mozart, brasileiro, atende por Mozá, sílaba tônica tão original quanto seu café.
Comparado ao elixir da juventude, o café de Mozart só não consegue solucionar poucos problemas. Com a iminência do ENEM, vi minha fiel amiga desesperar-se. Embora tivesse estudado o ano inteiro, Marina me telefonou após o primeiro dia de prova, chorando e extremamente aflita. Ciente de que o problema deveria ser encarado de frente e ainda teria outro dia de sabatina, sugeri um relaxamento provisório:
– Marina, peça para Mozart fazer café. Vai te acalmar um pouco.
– Eu odeio Mozart!
Percebam que Marina catalisou toda sua frustração em apenas odiar Mozart. Afinal, odiar o irmão? Tudo bem. Odiar o café? Jamais.
O desfecho desse dia de angústias e avaliações, você, caro leitor, já deve imaginar. Introduzi Marina nesse texto como uma jovem estudante de psicologia e, atualmente, é impossível ingressar na UFPB sem ser aprovado no ENEM. E quanto a Mozart, brasileiro, creio que ainda não compôs nenhuma peça musical – mas dizem que seu café faz bem aos cinco sentidos.

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