A coragem para quebrar algemas sociais

Nesse final de semana de premiação, duas das maiores tradições hollywoodianas estão perdendo seu valor: Leonardo di Caprio pode, finalmente, ganhar uma estatueta do Oscar e Meryl Streep, que costuma possuir vaga cativa nas categorias de Melhor Atriz/Melhor Atriz Coadjuvante, não foi indicada. Meryl fez apenas uma participação especial em seu último filme, ignorado completamente pela Academia. Mesmo assim, As Sufragistas (Suffragette, 2015) merece atenção.

Baseado na batalha das mulheres inglesas pelo direito de votar, o filme resgata as diferenças sociais do século XX com maestria. Uma jovem lavadeira e mãe dedicada, Maud Watts (interpretada por Carey Mulligan), se envolve com o movimento sufragista por acaso. Aos poucos, percebe que, apesar de condicionada a situações abusivas no trabalho, ganha menos do que o marido. Torna-se uma heroína anônima, apontando a importância de cada indivíduo para o êxito de uma reforma coletiva.

Maud se une ao movimento quando as manifestações estão mudando seu formato. A passividade dá lugar à desobediência civil. O desejo por aperfeiçoar as estruturas sociais leva as ativistas ao limite. São oprimidas pela polícia e humilhadas pelos cidadãos. Sofrem ainda mais preconceito, exclusão e violência. Ao apresentar personagens de diferentes esferas socioeconômicas, o filme mostra que todas são reprimidas apenas por pertencerem ao gênero feminino. Um século depois, o sentimento de companheirismo e sororidade (união entre mulheres firmada pela empatia) continua sendo uma urgência.

Para alcançar um mundo que sonhava mais justo, Maud perde muitas coisas que estima. Quando interrogada sobre os motivos da sua luta, ela justifica: “a ideia de que há outra maneira de viver essa vida me incentiva”. Naquele contexto, as mulheres ainda não possuíam a guarda dos filhos e o abuso patrimonial era cotidiano. O voto significava uma ferramenta para a emancipação.

Hoje, já podemos votar, mas nossa participação política ainda é ínfima. No Brasil, não vale alegar que o cargo máximo da República é ocupado por uma mulher, visto que a Câmara possui apenas 10% de representação feminina (dos 513 deputados federais eleitos em 2014, 51 são mulheres). O Senado Federal, 13% (12 das 81 cadeiras). Para um país em que 51,7% dos eleitores são mulheres, os números são desapontadores.

A carreira política é pouco atraente para o sexo feminino, porque reflete o nosso arraigado sistema patriarcal. Os partidos políticos são arranjados de acordo com as necessidades dos líderes masculinos, que ficam em evidência. Muitas das concorrentes a cargos públicos não fazem campanha eleitoral, se candidatando só para que o partido cumpra a cota obrigatória para mulheres.

A professora Wangari Maathai, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, disse que “quanto mais alto você for, menos mulheres estarão lá”. Falta muito para que sejam encontradas mais mulheres em posições de destaque. As mulheres da Arábia Saudita escolheram seus representantes democraticamente pela primeira vez há três meses. A igualdade ainda não foi alcançada.