Rita Lee escreve biografia para ovelha nenhuma se sentir negra

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O grande problema da História, aquela com H maiúsculo, é que fatos são muito difíceis de serem constatados. Há inúmeras versões. A cantora e compositora Rita Lee, que fez História na música brasileira, resolveu contar como ela mesma enxergou os acontecimentos em “Uma Autobiografia”, lançada esse mês pela Globo Livros.

A trajetória não é incomum: uma mocinha, fascinada por artistas e animais, quer aprender a tocar. Seu pai, dentista, negocia um tratamento por aulas de piano. Após muito ensaio, a apresentação. Diante da plateia, a caçula faz xixi nas calças. Muitos disseram para a menininha parar ali, já que tinha medo de palco. No meio do caminho, ela conheceu esse tal de Roque Enrow, que a mãe não entendia muito, e o palco passou a ser seu lugar seguro. Coisas da vida. Seja com Os Mutantes, seja em carreira solo, Rita Lee cantou canções iluminadas de sol e fez tudo que queria fazer.

A própria Rita escreveu o livro, dispensando ghost writer. É a maior virtude do texto, devido à autenticidade. Rita Lee se arrisca a fazer literatura com uma linguagem rock and roll, transformando as palavras em suas maiores aliadas. A prosa é original e cheia de estilo, misturando gírias, expressões em outras línguas e termos técnicos. É possível imaginar a cantora falando o que está escrito. O máximo de intervenção externa é um fantasminha (escrito por um jornalista e fã), que aparece, ocasionalmente, para dar maior precisão a alguns dados.

Se, quando alguém escreve sobre si, tende a omitir eventos que lhe causam vergonha, Rita faz o oposto: escancara toda a porra louquice. Fala das travessuras feitas com as irmãs quando criança (algumas de muito mau gosto para serem consideradas apenas traquinagem), assume as drogas, a bipolaridade e mais meia dúzia de transtornos. É para ovelha nenhuma se sentir negra.

E quando bota em xeque as desavenças, Lita Ree adota uma postura “diga que me odeia, mas diga que não vive sem mim”. Fala dos Mutantes (que a expulsaram da banda), de Ezequiel Neves (parceiro de Cazuza) e só não fala mais sobre uma confusão em um show, que resultou em cadeia, porque o ocorrido é recente e o processo ainda está correndo. Critica os músicos e, em seguida, tenta se mostrar superior. Diz que, mesmo depois de expulsa dos Mutas, coordenou a iluminação de um show deles. Sabemos que é Rita, mas não Santa.

Em diversas passagens, Rita se autodeprecia, especialmente a habilidade como cantora e musicista. A cantora, na verdade, é o conjunto completo. Demonstra extrema preocupação com a totalidade do show: passa som antes, se maquia, busca o figurino ideal, elabora números… Se ela quiser contrariar João Gilberto, admirador de sua voz, paciência. Consagra-se como roqueira, pela atitude, pela inovação, pela preocupação em fazer boa música, sem vender a alma. E isso vale mais do que umas notas afinadas. A modéstia passa a prejudicar o livro, quando ela esconde a relevância de certas obras, como o épico Fruto Proibido. O LP, cor de rosa choque, marcou gerações. De autoria feminina, sensual, alegre e de destaque nacional, é tratado no livro como uma bobagem.

Aliás, essa é a principal lacuna da biografia. Os detalhes sobre o processo criativo são escassos. Sabe-se que nos Mutas, as canções eram assinadas em conjunto, não importando a real autoria. Com Roberto de Carvalho, por quem ela declara seu amor o livro inteiro, as parcerias parecem mais justas. São nos momentos de fazer música com Roberto que ela se mostra mais alegre. E sua satisfação maior, revela, é ter feito um bocado de gente feliz. Com essa biografia, aposto que o número de pessoas aumentou. Rita segue fascinando o público, mesmo já fora dos palcos, e deixando mais uma legião com “mania de você”.

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