Deixe a música de Liniker bagunçar você

Assistir a um filme antigo com uma criança carrega certos misticismos. Entre eles, está a célebre pergunta, feita durante os longos créditos: o filme não vai começar? As novas gerações (incluindo a minha) querem consumir arte com pressa. A Música não é diferente. Canções compridas, como Like a Rolling Stone, do Bob Dylan, não tocam em rádios, nem são ouvidas até o final em serviços de streaming. Ninguém mais tem paciência para Faroeste Caboclo ou para um rock progressivo. Portanto, quando coloquei para tocar Remonta, primeiro CD de Liniker e Os Caramelows, tive uma surpresa. O disco foi feito para ser degustado.

A introdução é instrumental, as faixas beiram os seis minutos e exigem uma imersão do público. Não pela complexidade lírica, mas pela necessidade de sentir plenamente o que a banda propõe. Liniker versa sobre e com a linguagem universal: o amor. O sentimento independe de gênero ou opções, é livre, sem amarras sociais ou estereótipos. Quase sem querer, Remonta é um ato político, um grito de igualdade para pessoas diferentes. Começa com uma faixa homônima ao álbum, que deixa suas intenções claras quando brada “remonta/ que eu não quero mais/ saber de desamor”.

Depois dessa justa refutação, somos apresentados a três releituras das músicas já conhecidas. “Caeu”, “Zero” e “Louise du Brésil” ganharam novos arranjos e continuam irresistíveis. Márcio Arantes, parceiro musical de Maria Bethânia, transformou as execuções e manteve a energia. O trio, divulgado no EP “Cru”, foi responsável por impulsionar a carreira de Liniker. Oriundo do cenário independente, o jovem de 21 anos tinha essas canções como cartão de visita. Com elas, conquistou seu público, chamou atenção da mídia e conseguiu, por meio de um financiamento coletivo, Remontar.

Entre as novidades, estão “Tua”, carregando extrema sensualidade, e “Lina X”, que expõe influências de soul e funk. A black music também se faz presente em Prendedor de Varal, que invoca Tim Maia. “Não adianta vir com Guaraná pra mim/ o que eu quero é chocolate” se mistura ao groove dos Caramelows e o resultado é um banquete.

Não é um disco perfeito. No meio de tanta inovação, “Sem nome, mas com endereço” se entrega à pieguice. É cafona, clichê e oposto do que se espera. Em seguida, “Você fez merda” vem como uma tentativa fracassada de debochar de quem já lhe magoou. No mesmo âmbito, o pernambucano Johnny Hooker faz melhor uso do escárnio.

Para encerrar gloriosamente, surgem a descontraída “BoxOkê” e a intensa “Ralador de Pia”. Negra e transgênero, Liniker empodera-se cantando. Seu som é leve, mas com atitude. Fez um disco sobre ter o coração partido, enquanto busca a própria identidade. E quem nunca esteve em alguma dessas situações, infelizmente, um dia terá que desmontar.

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