Se eu corresse

Só entendo que preciso acumular menos cansaço quando acordo num sábado de manhã e percebo que dormi por quase catorze horas seguidas. Se eu tivesse forças, na véspera, teria corrido da obviedade. Faminta por existência social, sairia em disparada pela rua. Exausta, graças ao vestibular, somente apaguei. Acabei me presenteando com o dia seguinte livre, apesar de todas as obrigações pendentes.

Encerrei o sábado mais relaxada, realizando uma sessão caseira de A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty, 2013). Coincidentemente, o personagem-título sai correndo em determinada cena, decidido a fazer algo grandioso. É um filme do Ben Stiller em todos os aspectos: sem ritmo e prisioneiro de cacoetes cômicos, além de protagonizado e dirigido por ele. Em sua viagem mais memorável, Walter possui um acompanhamento musical “extraterrestre”. Dono de uma imaginação fértil, o protagonista delira e foge da realidade com frequência. Seu novo chefe (outro personagem mal construído, mais parece uma caricatura) o apelida de Major Tom, por causa do astronauta que flutua em Space Oddity, de David Bowie.

O camaleão do rock contribuiu para o cinema com tanta irreverência quanto para as outras artes. Emprestou seu corpo a um vampiro, a uma personalidade religiosa, ao rei dos duendes e ao maior artista do movimento Pop Art. Influenciou a produção de diversas outras obras, mesmo sem atuar. Marc Spitz, um dos muitos biógrafos de David, afirma que Velvet Goldmine (idem, 1998) não pega emprestado apenas o título de uma de suas canções, porque captura também sua essência e tenta reproduzir trechos biográficos. Entretanto, os filmes que mais dialogam com o meu íntimo, aqueles em que as imperfeições são celebradas ao som de Bowie, não se encaixam nessas categorias.

Walter Mitty não foi o primeiro a deslocar-se velozmente com uma trilha sonora inebriante. Frances Ha, em filme homônimo, está passando por problemas profissionais, assim como Walter. Seus 30 anos estão se aproximando de uma forma que nem Balzac poderia prever.      Ela não obtém reconhecimento profissional, ainda não comprou a casa própria e não corresponde às expectativas dos outros. Com todo o charme de uma fotografia em preto e branco, Frances se redescobre em Nova York enquanto ouvimos Modern Love. A música, do álbum Let’s Dance, embala também uma festa adolescente em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (idem, 2014), cujo protagonista é um jovem cego e gay.

Se a ideia de tocar Bowie num momento de descontração entre pessoas nascidas nos anos 2000 soar anacrônica, o cinema nacional encaixa melhor Five Years, reproduzida em California (idem, 2015), sobre a adolescência na “década perdida”. As angústias inerentes a essa fase permanecem as mesmas, mas as tendências musicais costumam variar de acordo com a geração. Mais de 300 mil reais foram investidos na trilha sonora, o maior trunfo do filme. As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012), que também retrata a juventude nos anos 80, traz Heroes num momento digno de fazer o espectador sentir-se infinito.

Bowie virou estrela há quase dois meses, mas se faz eterno através do cinema, do desejo de sair correndo da zona de conforto, dos animais de estimação batizados de Ziggy, da camisa de Wesley Safadão, dos brindes aos desajustados, da mágica de suas canções e do raio pintado por uma amiga no meu rosto para o meu último carnaval no colégio.

P.S.: em A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004), Seu Jorge (sim, o mesmo Seu Jorge que canta Burguesinha) interpreta várias versões de Bowie em português. É algo tão bizarro que só Wes Anderson faria.

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