3 filmes relacionados à Páscoa

Há pessoas que ficam em jejum, há quem reze, há famílias reunidas, há gente só curtindo o feriado, há esperança, há quem veja Os Dez Mandamentos no cinema. Eu costumo ver filmes. Eis uma pequena lista de bons longas para assistir enquanto não liberam os ovos de chocolate.

1) Jesus Cristo Superstar, de Norman Jewison: é um musical inusitado, que aborda os últimos dias de Jesus. O elenco é excelente (destaque para o ator que faz Judas) e sempre que alguém abre a boca para cantar, provoca arrepios. Apesar da ousadia e dos momentos engraçados, é bem respeitoso.

2) Desfile de Páscoa, de Charles Walters: sou obcecada pelo Fred Astaire e o mundo inteiro sabe. Dessa vez, o sapateado dele é acompanhado pela Judy Garland, um romance fofo e uma data comemorativa.

3) A vida de Brian, de Terry Jones: Monty Python é o grupo melhor grupo cômico da história. Nessa sátira, acompanhamos Brian, um cidadão comum confundido com o messias. É para rir até soluçar.

Bônus:

(500) Dias com Ela, de Marc Webb: na verdade, esse filme não tem nada a ver com o coelhinho ou Jesus, mas lembro de tê-lo assistido no sábado de uma semana santa que antecedeu muitas mudanças na minha vida. Vi com uma pessoa amada, curtindo a trilha sonora e odiando um personagem. Good memories.

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Lula lá: decresce a esperança

O pioneirismo egípcio é notável: a sociedade desenvolveu-se econômica e socialmente na Antiguidade. Escrita, pintura, arquitetura e mitologia foram altamente estimuladas às margens do Nilo. Com a abundância do papiro, suas fibras podiam ser utilizadas na construção de instrumentos, como cordas. Contudo, sua função mais lembrada é relacionada à fabricação do papel.

Escribas costumavam transcrever fatos, assuntos religiosos e questões políticas nos papiros. Para aumentar as vendas, propagandas também eram feitas. Essa forma primitiva da publicidade já antecipava o poder de tal meio de comunicação. A mídia é grande responsável pelas impressões sobre alguém, a prosperidade de empresas e a organização social contemporânea.

Não fossem as campanhas publicitárias comandadas pelos marqueteiros Duda Mendonça e João Santana, o Partido dos Trabalhadores não teria vencido tantas eleições consecutivas. Por trinta dias, o cineasta João Moreira Salles acompanhou os bastidores da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência da República, em 2002. Seus registros viraram um documentário: Entreatos.

Nele, reuniões, telefonemas e programas eleitorais explicam súbitas mudanças de rumo e discurso do agora ex-presidente investigado. É visto também um Lula brincalhão, pouco sério, que todos estamos cansados de ver. O filme é uma aula de merchandising e política. Mostra quem manda, como manda e porque manda. A mídia deveria informar e garantir a democracia, mas esse plano é utópico. Escrever sobre determinado assunto e publicá-lo em determinado veículo já é um posicionamento. A imparcialidade é impossível.

Em um voo ocupado por Lula, José de Alencar, Antônio Palocci e outros então petistas ferrenhos, havia um debate acerca do futuro. O documentário registra a seguinte pérola de um engravatado: “eu não sei como é que vai ser o governo desse moço, mas que vai ser engraçado, vai”. A frase antecede a longeva administração petista. Domingo passado, houve o maior protesto da história do Brasil. A inflação está altíssima. Corrupção e desonestidade estão evidentes. Os índices de desemprego são assustadores. É difícil rir diante da crise.

Teatro dos Vampiros, canção da Legião Urbana, possui o seguinte trecho: “acho que não sei quem sou/ só sei do que não gosto”. Vejo-me na mesma posição, sem saber o que irá acontecer ou qual é a melhor alternativa para a nação. Só sei que não quero não viver em uma democracia. Não quero viver em uma democracia presidida por uma pessoa tão desorganizada quanto Dilma Roussef. Não quero viver num país presidido por Michel Temer, que pode ser tudo, menos decorativo. Não quero viver sob as leis de Eduardo Cunha, que se aproveita da situação. Aliás, Temer e Cunha devem estar, nesse momento, elaborando planos e pedindo a bebida que pixxxxxxxca. Regina Duarte, lá em 2002, tinha razão em ter medo.

O tempo dos espíritos

Para ser eleito o primeiro presidente socialista do Chile, Salvador Allende precisou candidatar-se quatro vezes ao cargo. Das três primeiras, perdeu e virou senador por meio das eleições do ano seguinte. Da quarta, conquistou o poder executivo, mas seu mandato não foi duradouro. O golpe militar de 11 de setembro de 1973, três anos após a posse de Allende, impôs a ditadura de Augusto Pinochet. Desde o início de sua vida política, em Valparaíso, Salvador envolveu-se em diversas manifestações de ideologia esquerdista e não abriu mão da vida pessoal em nome do governo. Salvador casou-se e teve três filhas: Carmen, Beatriz e Isabel. Entretanto, foi outra Isabel Allende, filha de seu primo, quem usou o cenário político do Chile para contextualizar suas ficções.

Em A Casa dos Espíritos, magnum opus de Isabel, é narrada a história de três gerações da família Del Valle-Trueba. Rosa Del Valle, uma menina de cabelos verdes, irá casar-se com Esteban Trueba, que passa dois anos longe, tentando fazer fortuna antes de desposá-la. Clara, sua irmã, prevê uma morte na família. Quando a profecia se concretiza e Rosa morre envenenada (um engano, já que o veneno era destinado ao pai das duas), Clara se culpa e fica muda. Volta a falar anos depois, anunciando que irá casar. Esteban aparece na porta dos Del Valle, procurando uma pretendente. O relacionamento dos dois “prospera” e dele nasce uma filha, Blanca.

A construção dos personagens é minuciosa. As mulheres da família, Clara, Blanca e, futuramente, a neta Alba, compartilham mais do que nomes análogos semanticamente. São fortes e dons paranormais permeiam as suas vidas. Clara, claríssima e clarividente, é a mais singular do livro. Desde cedo, cultivou o hábito de escrever coisas importantes (passando a anotar, posteriormente, as trivialidades também). Blanca apaixona-se, ainda criança, pelo descendente de um funcionário da fazenda do pai, Pedro Terceiro García. O garoto adota ideias anarquistas, inspirando Blanca a rever os princípios morais do seu lar. Alba nasce nesse meio e, saindo da adolescência, participa de movimentos estudantis.

Durante a narrativa, Esteban enriquece e vira um homem influente. Publicamente, era um político respeitado. Em casa, era canalha: chega a bater na esposa e na filha. O comportamento de Esteban é ranzinza e violento. Sua posição, sempre muito conservadora, é confrontada por alguns personagens. Com o passar das páginas, a ditadura vai se instalando no Chile e os horrores desse sistema tirânico são expostos.

O estilo de Allende é marcante, já que sua prosa mescla assuntos sociais aos íntimos, assim como a magia é misturada à memória. É impossível não ficar encantado com a vida, os mortos, os caminhos tortos e o sangue latino dos Trueba.

Se eu corresse

Só entendo que preciso acumular menos cansaço quando acordo num sábado de manhã e percebo que dormi por quase catorze horas seguidas. Se eu tivesse forças, na véspera, teria corrido da obviedade. Faminta por existência social, sairia em disparada pela rua. Exausta, graças ao vestibular, somente apaguei. Acabei me presenteando com o dia seguinte livre, apesar de todas as obrigações pendentes.

Encerrei o sábado mais relaxada, realizando uma sessão caseira de A Vida Secreta de Walter Mitty (The Secret Life of Walter Mitty, 2013). Coincidentemente, o personagem-título sai correndo em determinada cena, decidido a fazer algo grandioso. É um filme do Ben Stiller em todos os aspectos: sem ritmo e prisioneiro de cacoetes cômicos, além de protagonizado e dirigido por ele. Em sua viagem mais memorável, Walter possui um acompanhamento musical “extraterrestre”. Dono de uma imaginação fértil, o protagonista delira e foge da realidade com frequência. Seu novo chefe (outro personagem mal construído, mais parece uma caricatura) o apelida de Major Tom, por causa do astronauta que flutua em Space Oddity, de David Bowie.

O camaleão do rock contribuiu para o cinema com tanta irreverência quanto para as outras artes. Emprestou seu corpo a um vampiro, a uma personalidade religiosa, ao rei dos duendes e ao maior artista do movimento Pop Art. Influenciou a produção de diversas outras obras, mesmo sem atuar. Marc Spitz, um dos muitos biógrafos de David, afirma que Velvet Goldmine (idem, 1998) não pega emprestado apenas o título de uma de suas canções, porque captura também sua essência e tenta reproduzir trechos biográficos. Entretanto, os filmes que mais dialogam com o meu íntimo, aqueles em que as imperfeições são celebradas ao som de Bowie, não se encaixam nessas categorias.

Walter Mitty não foi o primeiro a deslocar-se velozmente com uma trilha sonora inebriante. Frances Ha, em filme homônimo, está passando por problemas profissionais, assim como Walter. Seus 30 anos estão se aproximando de uma forma que nem Balzac poderia prever.      Ela não obtém reconhecimento profissional, ainda não comprou a casa própria e não corresponde às expectativas dos outros. Com todo o charme de uma fotografia em preto e branco, Frances se redescobre em Nova York enquanto ouvimos Modern Love. A música, do álbum Let’s Dance, embala também uma festa adolescente em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho (idem, 2014), cujo protagonista é um jovem cego e gay.

Se a ideia de tocar Bowie num momento de descontração entre pessoas nascidas nos anos 2000 soar anacrônica, o cinema nacional encaixa melhor Five Years, reproduzida em California (idem, 2015), sobre a adolescência na “década perdida”. As angústias inerentes a essa fase permanecem as mesmas, mas as tendências musicais costumam variar de acordo com a geração. Mais de 300 mil reais foram investidos na trilha sonora, o maior trunfo do filme. As Vantagens de Ser Invisível (The Perks of Being a Wallflower, 2012), que também retrata a juventude nos anos 80, traz Heroes num momento digno de fazer o espectador sentir-se infinito.

Bowie virou estrela há quase dois meses, mas se faz eterno através do cinema, do desejo de sair correndo da zona de conforto, dos animais de estimação batizados de Ziggy, da camisa de Wesley Safadão, dos brindes aos desajustados, da mágica de suas canções e do raio pintado por uma amiga no meu rosto para o meu último carnaval no colégio.

P.S.: em A Vida Marinha com Steve Zissou (The Life Aquatic with Steve Zissou, 2004), Seu Jorge (sim, o mesmo Seu Jorge que canta Burguesinha) interpreta várias versões de Bowie em português. É algo tão bizarro que só Wes Anderson faria.