por Veronica.
acontece.
até então, quando as pessoas me diziam “acontece”, eu associava a expressão a qualquer coisa descuidada, desprendida demais. sempre rejeitei o raso e o desprendido, sofro deste mal chamado apego. quem se apegaria tão pouco a algo, a ponto de deixá-lo sofrer a influência de meros acontecimentos?
nada costumava acontecer comigo. havia um processo, havia situações a prova de falha, havia certezas, sustentáculos, esteios, alicerces. se algo acontecia de fato, é porque havia sido planejado ou ao menos caberia confortavelmente dentro dos planos. nada de surpresas, nada que requeresse grandes sustos ou revoluções.
eu tinha a minha vida, uma meia dúzia de sonhos bastante atrapalhados, a minha confortável imaturidade, a convicção de que, por mais que perdesse, sempre manteria comigo alguma coisa qualquer, que permaneceria vigilante ao meu lado.
não fui negligente, estive alerta o tempo todo, eu velava, eu direcionava todas as minhas maiores crenças e convicções, ficava em redor, mantinha perto de mim, aquecia com o meu próprio calor.
eu não estava preparada para acontecimentos. estava preparada apenas para aquele momento meu, aquele que eu criei e cuidei e tranquei sob mil segredos, justamente para que nada além dele acontecesse.
mas um dia aconteceu. acontece, as pessoas me dizem.
e desde então tem sido como se um bumbo soasse do lado de dentro dos meus ouvidos. para que eu me recorde. para que eu me acostume. para que eu me convença de que, a despeito de todo o resto do mundo, a despeito de todas as minhas vontades, a despeito de toda a minha incredulidade diante da fragilidade das coisas: acontece. acontece. acontece.

