Arquivo da categoria ‘Zine Vanilli’

h1

Acontece.

15 Agosto 2008

por Veronica.

acontece.
até então, quando as pessoas me diziam “acontece”, eu associava a expressão a qualquer coisa descuidada, desprendida demais. sempre rejeitei o raso e o desprendido, sofro deste mal chamado apego. quem se apegaria tão pouco a algo, a ponto de deixá-lo sofrer a influência de meros acontecimentos?
nada costumava acontecer comigo. havia um processo, havia situações a prova de falha, havia certezas, sustentáculos, esteios, alicerces. se algo acontecia de fato, é porque havia sido planejado ou ao menos caberia confortavelmente dentro dos planos. nada de surpresas, nada que requeresse grandes sustos ou revoluções.
eu tinha a minha vida, uma meia dúzia de sonhos bastante atrapalhados, a minha confortável imaturidade, a convicção de que, por mais que perdesse, sempre manteria comigo alguma coisa qualquer, que permaneceria vigilante ao meu lado.
não fui negligente, estive alerta o tempo todo, eu velava, eu direcionava todas as minhas maiores crenças e convicções, ficava em redor, mantinha perto de mim, aquecia com o meu próprio calor.
eu não estava preparada para acontecimentos. estava preparada apenas para aquele momento meu, aquele que eu criei e cuidei e tranquei sob mil segredos, justamente para que nada além dele acontecesse.
mas um dia aconteceu. acontece, as pessoas me dizem.
e desde então tem sido como se um bumbo soasse do lado de dentro dos meus ouvidos. para que eu me recorde. para que eu me acostume. para que eu me convença de que, a despeito de todo o resto do mundo, a despeito de todas as minhas vontades, a despeito de toda a minha incredulidade diante da fragilidade das coisas: acontece. acontece. acontece.

h1

AINDA QUE

3 Julho 2008

locução conjuntiva subordinativa de concessão
por Fel.

Ainda que ela esqueça, que ela finja que nada aconteceu, ainda que ela consiga olhar dentro dos olhos dele e não lembrar da quantidade de água que saiu dos dela por culpa dele, ainda que formem dois arco-íris de novo, ainda que ela não ouça mais certas músicas e lembre dele, ainda que a raiva que ela sente da idiotice que ele fez passe, ainda que ela não se sinta mais invadida cada vez que ele fale com qualquer pessoa que faça parte do mundo dela, ainda que ela não queira mais se esconder, que não se importe em contar pra ele como está a sua vida, que ela não tenha medo dele estragá-la de novo, ainda que ela volte a se sentir dele, que ela não sinta mais vontade de nunca mais olhar pra ele, ainda que ela não ache mais que ela pode ser feliz com outras pessoas ou sozinha, mas só com ele, ainda que ele volte a inspirar boas idéias e não só textos inúteis e tristes e amargos feito esse, ainda que ela consiga ser melhor do que ela é, ainda que ela olhe pra ele e pense que ela não deveria sentir o que ela sente, que ela deveria ser maior do que tudo isso, que ela deveria deixar pra lá, ainda que ouvir o nome dele volte a colocar um sorriso no seu rosto, ainda que o mundo acabe, existirá sempre esse abismo enorme entre os dois, que é a diferença infinita da definição de amor dela para a dele.

Do Extinto  Zine Vanilli